Dra. Ana Rodrigues
Médica de Medicina Geral e Familiar
Médica especialista em Medicina Geral e Familiar com 11 anos de exercício nos Cuidados de Saúde Primários do SNS. Exerce funções numa USF em Lisboa, onde acompanha utentes de todas as idades com foco na prevenção, gestão de doenças crónicas e promoção de estilos de vida saudáveis.
Licenciada em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e com especialização em MGF pelo Colégio de Especialidade da Ordem dos Médicos. Participa regularmente em formações contínuas e tem especial interesse em saúde da mulher, diabetes e literacia em saúde.
Doença Renal Crónica: Acompanhamento e Prevenção no Centro de Saúde
A doença renal crónica (DRC) afeta aproximadamente 800 000 portugueses, muitos dos quais sem conhecimento do diagnóstico. É uma condição progressiva em que os rins perdem gradualmente a capacidade de filtrar o sangue e regular o equilíbrio hídrico e eletrolítico do organismo. O diagnóstico precoce e o acompanhamento nos cuidados de saúde primários são fundamentais para travar a progressão e evitar a diálise.
Fatores de risco para doença renal crónica
Os principais fatores de risco são:
- Diabetes mellitus (causa mais comum de DRC em Portugal)
- Hipertensão arterial
- Obesidade
- Doenças cardiovasculares
- História familiar de doença renal
- Infeções urinárias recorrentes
- Uso crónico de anti-inflamatórios (AINEs)
- Tabagismo
Como é feito o diagnóstico?
A DRC é diagnosticada com análises simples que o médico de família pode solicitar na consulta:
- Creatinina sérica: marcador da função renal
- TFGe (Taxa de Filtração Glomerular estimada): calculada a partir da creatinina, idade e sexo — classifica a gravidade da DRC (estádios G1 a G5)
- Rácio albumina/creatinina urinário (RAC): deteção de proteinúria, sinal precoce de lesão renal
- Análise de urina: presença de sangue, proteínas ou glóbulos brancos
Sintomas: a doença silenciosa
Nos estádios iniciais, a DRC é frequentemente assintomática. Só nas fases avançadas surgem sintomas como:
- Edemas (inchaço) nos tornozelos e pés
- Fadiga intensa e fraqueza
- Redução do volume urinário ou urinar com espuma
- Náuseas, falta de apetite
- Prurido (comichão) generalizado
- Dificuldade de concentração
Estes sintomas são sinais de doença avançada. Por isso, o rastreio em grupos de risco é essencial para diagnóstico precoce.
Acompanhamento no centro de saúde
O médico de família coordena o acompanhamento dos doentes com DRC nos estádios G1 a G3, com:
- Análises semestrais ou anuais de monitorização da função renal
- Controlo rigoroso da tensão arterial (objetivo <130/80 mmHg)
- Otimização do controlo glicémico nos diabéticos
- Prescrição de inibidores SGLT2 ou IECA/ARA conforme indicado
- Aconselhamento nutricional: redução do sal, proteína e potássio
- Gestão da medicação: evitar fármacos nefrotóxicos
Quando referenciar para nefrologia?
A referenciação para consulta hospitalar de Nefrologia está indicada nos estádios G4/G5, na presença de proteinúria significativa, deterioração rápida da função renal ou dúvidas diagnósticas.
Diálise e transplante renal no SNS
Em Portugal, todos os doentes com insuficiência renal terminal têm acesso gratuito à hemodiálise ou diálise peritoneal no SNS. O transplante renal, quando indicado, é realizado nos centros de transplantação nacionais com comparticipação total pelo Estado.
Se tem diabetes, hipertensão ou outros fatores de risco, peça ao seu médico de família uma avaliação da função renal. A deteção precoce pode fazer toda a diferença.