Enf. Pedro Marques
Enfermeiro Especialista em Saúde Comunitária
Enfermeiro especialista em Enfermagem de Saúde Comunitária e Saúde Pública com 9 anos de experiência em Centros de Saúde do SNS. Trabalha no terreno como enfermeiro de família e coordena programas de vacinação, rastreio oncológico e cuidados domiciliários a população vulnerável.
Licenciado em Enfermagem pela Escola Superior de Enfermagem do Porto e membro ativo da Ordem dos Enfermeiros. Colabora com equipas multidisciplinares na promoção da saúde junto de escolas, idosos e comunidades rurais.
Ansiedade e Depressão: Diagnóstico e Tratamento nos Cuidados de Saúde Primários
A ansiedade e a depressão estão entre as perturbações de saúde mental mais comuns em Portugal e no mundo. Segundo a DGS, afetam conjuntamente cerca de 22% da população portuguesa, com impacto significativo na qualidade de vida, nas relações pessoais e no desempenho profissional. Os cuidados de saúde primários são a porta de entrada ideal para o diagnóstico e tratamento destas condições.
Depressão: mais do que tristeza
A depressão é uma doença do foro mental com critérios diagnósticos precisos. Os sintomas característicos incluem:
- Humor deprimido ou tristeza a maior parte do dia, quase todos os dias
- Perda de interesse ou prazer em atividades que antes eram apreciadas
- Alterações do apetite e peso
- Insónia ou sono excessivo
- Fadiga intensa e falta de energia
- Dificuldade de concentração
- Sentimentos de culpa, inutilidade ou desespero
- Pensamentos recorrentes de morte ou suicídio
Para diagnóstico, estes sintomas devem estar presentes pelo menos duas semanas e causar sofrimento ou incapacidade funcional.
Ansiedade: quando a preocupação toma conta da vida
A perturbação de ansiedade generalizada (PAG) caracteriza-se por:
- Preocupação excessiva e difícil de controlar em múltiplas áreas da vida
- Tensão muscular, fadiga, cefaleias
- Dificuldade em dormir
- Irritabilidade e dificuldade de concentração
- Sintomas físicos: palpitações, falta de ar, sudação, tremores
Como é feito o diagnóstico no centro de saúde?
O médico de família usa instrumentos validados para rastreio e diagnóstico:
- PHQ-9: questionário de 9 perguntas para avaliar a gravidade da depressão
- GAD-7: escala de avaliação da ansiedade generalizada
- Avaliação do risco de suicídio
- Exclusão de causas orgânicas (disfunção tiroideia, anemia, outros)
Tratamento: o que o SNS oferece
O tratamento das perturbações de ansiedade e depressão combina abordagens farmacológicas e psicológicas:
- Psicoterapia / Intervenção psicológica breve: o médico de família pode referenciar para psicólogo no SNS. Em muitos ACES, há psicólogos clínicos integrados nas equipas de cuidados primários.
- Antidepressivos: ISRS (inibidores seletivos da recaptação de serotonina) como a sertralina ou a fluoxetina são prescritos pelo médico de família para casos moderados a graves
- Ansiolíticos: benzodiazepinas apenas em ciclos curtos por risco de dependência; preferência por alternativas como a buspirona ou antidepressivos com ação ansiolítica
- Programas de literacia em saúde mental: disponíveis em alguns ACES (mindfulness, gestão do stress)
Linha de Apoio à Saúde Mental
O SNS disponibiliza o SNS24 (808 24 24 24) com orientação para situações de crise de saúde mental. Para situações de emergência com risco de vida, ligue 112.
A linha Voz de Apoio: 225 506 070 oferece apoio psicológico gratuito e confidencial.
Quando referenciar para psiquiatria?
O médico de família referencia para consulta hospitalar de Psiquiatria em casos de:
- Depressão grave com risco de suicídio
- Resposta insuficiente a dois ciclos de tratamento adequado
- Perturbação bipolar, psicose ou outras comorbilidades psiquiátricas complexas
- Necessidade de internamento para estabilização
Pedir ajuda é um sinal de coragem, não de fraqueza. Se sente que algo não está bem, marque uma consulta com o seu médico de família — a recuperação é possível e o SNS tem recursos para apoiá-lo nessa jornada.
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