Doenças Raras em Portugal: Como o SNS Apoia os Doentes e Famílias
Dra. Sofia Mendes

Dra. Sofia Mendes

Médica de Saúde Pública

Médica especialista em Saúde Pública com formação em epidemiologia e promoção da saúde. Integra a Unidade de Saúde Pública de um ACES na região Centro de Portugal, onde desenvolve programas de vigilância epidemiológica, rastreios populacionais e educação para a saúde.

Doutoranda em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP-UNL) e autora de conteúdos de saúde destinados ao cidadão. Defende que a informação clara e acessível é o primeiro passo para uma população mais saudável e autónoma nas suas decisões de saúde.

Doenças Raras em Portugal: Como o SNS Apoia os Doentes e Famílias

Em Portugal, estima-se que cerca de 700 000 pessoas vivem com uma doença rara — definida como aquela que afeta menos de 5 em cada 10 000 pessoas. Apesar de individualmente raras, em conjunto representam um desafio enorme para o sistema de saúde e para as famílias afetadas. O SNS tem vindo a estruturar uma resposta crescente para este grupo de doentes.

O que define uma doença rara?

A União Europeia define doença rara como aquela com prevalência inferior a 5 por 10 000 habitantes. Existem mais de 7 000 doenças raras identificadas, das quais:

  • 80% têm causa genética
  • 75% afetam crianças
  • Muitas são progressivas, debilitantes e potencialmente fatais
  • O diagnóstico correto demora em média 5 a 7 anos a obter

Centros de Referência de Doenças Raras em Portugal

Portugal tem uma rede de Centros de Referência para Doenças Raras reconhecidos pelo SNS e integrados nas Redes de Referência Europeias (ERN), que incluem hospitais especializados em:

  • Doenças metabólicas hereditárias (Hospital de Santa Maria, Centro Hospitalar Universitário do Porto)
  • Fibrose quística
  • Doenças neuromusculares
  • Hemofilia e outras doenças hemorrágicas
  • Imunodeficiências primárias
  • Doenças lisossomais de sobrecarga

Programa Nacional para as Doenças Raras

A Direção-Geral da Saúde coordena o Programa Nacional para as Doenças Raras, que visa:

  • Reduzir o tempo até ao diagnóstico
  • Garantir acesso equitativo a tratamentos inovadores
  • Criar registos de doentes para investigação
  • Melhorar a formação dos profissionais de saúde
  • Apoiar as associações de doentes

Medicamentos órfãos: o que são e como aceder?

Os medicamentos órfãos são desenvolvidos especificamente para doenças raras. Devido ao pequeno número de doentes, as empresas farmacêuticas têm pouco incentivo comercial para os desenvolver — por isso a UE criou legislação especial para incentivar a sua produção.

Em Portugal, os medicamentos órfãos podem ser acedidos através de:

  • Aprovação pelo INFARMED com comparticipação pelo SNS
  • Autorização de Utilização Excecional (AUE): para medicamentos ainda não aprovados em Portugal mas disponíveis noutros países
  • Ensaios clínicos em hospitais portugueses

O papel do médico de família

O médico de família tem um papel crítico na suspeita diagnóstica e referenciação precoce. Sintomas inespecíficos como atraso de desenvolvimento, fraqueza muscular progressiva, hipoglicemias recorrentes ou manifestações multissistémicas devem despertar suspeita de doença rara e motivar encaminhamento para especialidade.

Associações e recursos de apoio

  • FEDRA (Federação das Doenças Raras de Portugal): portal de informação e apoio a doentes
  • Rare Diseases Portugal: rede de associações de doentes
  • ORPHANET (orpha.net): base de dados europeia de doenças raras
  • Portal SNS: lista de centros de referência e informação sobre programas de apoio

Se suspeita de uma doença rara — em si ou num familiar — não desista de procurar respostas. O diagnóstico pode demorar, mas os recursos existem. Fale com o seu médico de família e, se necessário, peça referenciação para um centro de referência especializado.

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