Dra. Sofia Mendes
Médica de Saúde Pública
Médica especialista em Saúde Pública com formação em epidemiologia e promoção da saúde. Integra a Unidade de Saúde Pública de um ACES na região Centro de Portugal, onde desenvolve programas de vigilância epidemiológica, rastreios populacionais e educação para a saúde.
Doutoranda em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP-UNL) e autora de conteúdos de saúde destinados ao cidadão. Defende que a informação clara e acessível é o primeiro passo para uma população mais saudável e autónoma nas suas decisões de saúde.
Insónia e Distúrbios do Sono: Abordagem nos Cuidados de Saúde Primários
A insónia é um problema de saúde muito prevalente: cerca de 30% dos adultos portugueses sofre de dificuldades de sono ocasionais e 10-15% de insónia crónica. O médico de família é o primeiro profissional a contactar — e pode oferecer tratamentos eficazes sem recurso imediato a medicação.
O que é a insónia?
A insónia define-se como dificuldade em adormecer, manter o sono ou acordar demasiado cedo, com impacto no funcionamento diurno (sonolência, irritabilidade, dificuldade de concentração). É crónica quando dura mais de 3 meses, com pelo menos 3 noites por semana afetadas.
Diagnóstico no Centro de Saúde
O médico de família avalia as causas da insónia, que podem ser múltiplas:
- Má higiene do sono (horários irregulares, uso de ecrãs antes de dormir)
- Ansiedade e depressão
- Apneia do sono (ronco intenso, sonolência diurna excessiva)
- Doenças crónicas (dor, DPOC, refluxo)
- Medicamentos (diuréticos, corticóides, estimulantes)
- Consumo de cafeína, álcool ou tabaco
Tratamento de primeira linha: Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC-I)
A TCC-I é o tratamento de primeira linha para a insónia crónica, com eficácia superior a qualquer medicamento. Inclui:
- Restrição do tempo na cama (consolidação do sono)
- Controlo do estímulo (usar a cama apenas para dormir)
- Técnicas de relaxamento
- Higiene do sono: horário regular, quarto escuro e fresco, sem ecrãs 1h antes de dormir
Quando usar medicação?
Os hipnóticos (benzodiazepinas e análogos) devem ser usados com critério, por períodos curtos (2-4 semanas), como adjuvante da TCC-I, não como solução a longo prazo. O médico de família pode prescrever e monitorizar o uso destes medicamentos de forma segura.